De noite o beco sombrio avulta a sensação, quem olha para estes becos fica prisioneiro daquele vento que arrepia, daquele nevoeiro que penetra e traz os medos.
O som dos passos de alguém que procura o beco, aflige-me. Com um olhar rápido reparo na luz que esse alguém é, e fujo para outro beco, fujo para um lugar mais recôndito, a luz nasce demasiadas vezes. Fujo de mim, desses passos luminosos que dou. Fujo de quem sou, pois quem sou ilumina qualquer beco onde me esconda.
A fuga exaspera-me e eu transformo-me noutro alguém, num ser que já fui demasiadas vezes, fujo do mundo e voo para o hemisfério donde provenho, procuro regressar, donde saí depois da juventude, fujo para o lugar tumultuoso onde caminhei bêbado, apanhando os pensamentos que se espalhavam ao comprido, vomitando as paredes e partindo as lâmpadas que me encadeavam, fujo para esse lugar donde saí depois da juventude, fujo para esse hemisfério, fujo para lá de quem sou, para ser outro alguém, menos purista, menos rigoroso, menos entediante, fujo para esse lugar donde saí depois da juventude, para que deixe os outros livres de mim, para que não interfira na liberdade alheia, fujo para lá, porque aqui eu sou demais, o ténue equilíbrio desvanece-se e eu sou mais do que devia ser.
Apenas a solidão compreende a noite porque é nela que as almas se confessam, é à noite que os seres de óculos escuros partilham as dores que os dias tendem a camuflar, é à noite que as almas lavam a roupa e se vestem de lavado.
É à noite que alguém que não eu se torna em quem eu sou!
Caros leitores, hoje é dia 9 de Março de 2009 e são 21h26, há já alguns anos que não me sentia tão compenetrado na escrita como esta noite, estes parágrafos que leram fizeram-me recordar o modo de escrever com que o Cristal da Ilusão foi erigido. Foi neste deambular que o livro nasceu. Precisamente neste ressoar das frases.